| O Natal ao redor do mundo - As peculiaridades dos ciganos e a diversidade no Oriente |
| Sex, 24 de Dezembro de 2010 08:47 |
![]() Os povos ciganos são errantes por natureza e vagam pelo mundo desde a Idade Média. Conta-se que eles são descendentes das populações que habitavam os atuais territórios da Índia e do Paquistão e que foram obrigados a emigrar para o ocidente, atravessando rios, florestas e reinos inimigos entre si. Hoje os ciganos são encontrados aos milhares, sobretudo nas periferias das cidades. Muitos deles são alvo de preconceito e vivem marginalizados, mas todos guardam muito orgulho da cultura que expressam na música, na dança e nas artes em geral. Eles não têm religião própria e costumam dar um toque especial à crença predominante nos países que os acolhem. O presidente da ONG Embaixada Cigana, Nicolas Ramanush, conta algumas das peculiaridades de seu povo na comemoração do Natal: "Por exemplo, não costumamos enfeitar árvores sintéticas, como esses pinheirinhos que as pessoas compram e enfeitam com motivos de neve e bolas coloridas. Quando enfeitamos uma árvore, nós o fazemos num quintal e enfeitamos uma árvore de louro. E o enfeite é mais próximo da natureza: então, nós costumamos colocar bombons embalados na árvore, alguns objetos que lembrem o nosso lado mais espiritualizado - como uma cruz, uma estrela - e, normalmente, no lugar das bolas, poderíamos colocar frutas, como maçã, principalmente". Os povos ciganos são divididos em clãs. Aqui no Brasil, predominam os Kalon, que mantêm a tradição de peregrinação pelo país, e os Sinti, que costumam se fixar um pouco mais em determinado lugar. Nicolas Ramanush é Sinti e explica que, para os ciganos, o misticismo também é levado em conta para celebrar o nascimento de Jesus. "Para o Natal, temos a prática de rituais. Não pode faltar o ´manrô´, que significa pão. E esse pão deve ser partido à mão, no momento da comemoração. Ele deve ser embebido em uma taça de vinho de cristal, com detalhes em ouro, e depois molhado rapidamente no sal grosso e levado à boca com um pedido de Natal. A comemoração do Natal para nós também tem a ver com a comemoração do solstício: o manrô, que é o nosso pão, passou pelo fogo, pela água, pelo ar e, obviamente, pela terra que deu o trigo. Ele contém os quatro elementos e é, por isso, que nós o utilizamos no natal". A Ásia, maior continente do planeta, é berço de civilizações milenares que hoje cultuam crenças muito específicas. Só o Oriente Médio, região entre o Mediterrâneo e o Golfo Pérsico, viu surgirem três das principais religiões do mundo: Cristianismo, Islamismo e Judaísmo. Foi na Ásia que também nasceram o Budismo, o Xintoísmo e o Hinduísmo, que hoje arrastam multidões de fiéis seguidores. Os cristãos são minoria no mundo oriental, mas nem por isso o nascimento de Jesus passa despercebido na região. Na China Socialista, é possível encontrar lanternas de papel, flores e árvores de Natal enfeitando as casas de famílias cristãs. No Iraque, nem a ditadura de Saddam Hussein nem a Guerra do Golfo impediram a tradição de se queimar pilhas de espinhos secos durante o Natal. Diz a lenda de lá que a forma da chama indica o futuro da família no ano seguinte. Cristãos orientais, e até mesmo os seguidores de outras religiões, também já se renderam aos símbolos comerciais do Natal. Ninguém mais se espanta, por exemplo, ao encontrar Papai Noel e suas renas cantando "Jingle Bells" nos centros comerciais da emergente Índia. O Japão é outro país seduzido pelos símbolos comerciais do Natal ocidental. O massoterapeuta brasileiro Ricardo Yuji Fujii viveu sete anos no país e viu de perto as celebrações de 25 de dezembro em grandes cidades japonesas, como Tóquio, Osaka, Nagoya e Quioto. Apesar de budistas e xintoístas serem ampla maioria entre a população, a data do principal marco do Cristianismo é feriado no Japão e, segundo Yuji Fujii, movimenta os shoppings do país. "O Natal começou a ser comemorado com mais força a partir dos anos 90. O povo jovem comemorava mais. Você via muitos casais nas ruas, de mãos dadas, trocando presentes. O que é diferente é em relação às famílias. O encontro de famílias lá, que é proporcionado aqui no Natal, acontece no Ano Novo. As pessoas mais velhas não se interessam muito por esse feriado. O que é abrangente no Japão é que é um país capitalista, é um país muito consumista, então, o Natal entrou lá para ficar e, aos poucos, vai se inserindo no universo japonês". E, nesse aspecto, Yuji Fujii percebeu que os japoneses se inspiram no modo norte-americano de comemorar o Natal. "A figura de Papai Noel é bem americanizada mesmo. Então, música, propaganda e tudo o que é coisa comercial, eles se espelham muito nos Estados Unidos." O arqueólogo e professor de História da Unicamp, Pedro Funari, é um estudioso das celebrações do Natal no mundo. Ele identifica, entre os povos orientais, verdadeiros focos de resistência aos modismos. "Nesses países em que os cristãos são minoria, a festividade de Natal não é oficial, não é difundida amplamente, como é o caso da Síria. Então, a comemoração do Natal nesses países, como a Síria e o Egito, por parte dos cristãos, ainda é carregada daquela tradição de freqüentar a missa, de fazer uma festividade com as pessoas em casa, fazer uma refeição de caráter mais reservado e simbólico". A tradição de católicos, ortodoxos e protestantes diz que Jesus Cristo nasceu, há quase 2011 anos, em Belém, cidade encravada na Cisjordânia e disputada hoje por palestinos e israelenses, no conturbado Oriente Médio. Quando há trégua nos conflitos, a cidade costuma receber peregrinações de visitantes cristãos e não-cristãos durante o natal. Esse encontro ecumênico em Belém acontece porque, apesar de muita gente no mundo usar a religião para fazer a guerra, é inegável que há pelo menos um dado positivo unindo praticamente todas as crenças: a propagação dos ideais de amor ao próximo, respeito à vida, bondade, caridade e paz. De Brasília, José Carlos Oliveira Rádio Câmara |
